Se não fossem outras pessoas a cantar as suas canções — pense-se nas versões de artistas como Peter, Paul and Mary, Odetta, The Byrds ou Joan Baez — talvez Bob Dylan não tivesse conseguido continuar a viver da composição durante tanto tempo.
Dá sempre para perceber quando um compositor não fez o trabalho de base, não ganhou experiência nem aprendeu a tocar através de centenas de interpretações de músicas alheias antes de começar a escrever as suas próprias. Falta-lhes contexto e noção do lugar que ocupam na história da música.
A música é a nossa língua comum, e as canções são a linguagem em que comunicamos. Todos temos músicas que nos tocaram profundamente, que mudaram a forma como sentimos ou pensamos, que conseguiram pôr em palavras emoções que nós próprios nunca soubemos explicar. É por isso que pegamos em músicas de outros e as cantamos também. É por isso que existem tantas versões: porque a música é uma linguagem colectiva e universal.
Por vezes, uma grande versão dá uma nova vida, um novo significado e um novo público a uma canção. Outras vezes, torna-se tão popular que muita gente até se esquece de que era uma versão.
Mas isso não quer dizer que todas as versões sejam boas. Aquele coro de celebridades a cantar “Imagine” durante o confinamento — que conseguiu tornar uma má fase ainda pior — nem devia contar, mas se contasse ficava facilmente em primeiro lugar em qualquer lista das piores versões de sempre. Já agora, talvez fosse boa ideia mandar também a versão original de “Imagine” para o esquecimento de vez. Ainda assim, não faltam candidatos ao título.
Cinco versões que deviam ser apagadas da história
Fast Car – Luke Combs (2023)
Artista original: Tracy Chapman
Toda a gente conhece esta música; cantar “Fast Car” é quase tão universal como respirar. Mas isso não significa que toda a gente a deva cantar ao microfone. O álbum de estreia homónimo de Tracy Chapman é praticamente perfeito. Está carregado de sangue, suor e lágrimas. Tem beleza e tragédia, dureza, alma e emoção. É profundamente político e emocionalmente poderoso. Não há nada que apeteça mudar em músicas como “Talkin’ Bout a Revolution”, “Across the Lines”, “Behind the Wall”, “Baby Can I Hold You”, “She’s Got Her Ticket” ou, claro, “Fast Car”.
E a última coisa que alguém quereria mudar nessas músicas era a própria Tracy Chapman. Talvez por isso fosse possível preencher esta lista inteira apenas com versões diferentes de “Fast Car”. A de Luke Combs é especialmente má, porque retira toda a alma a uma música já de si devastadora.
Where Did You Sleep Last Night? – Nirvana (1995)
Canção tradicional, versão popularizada por Lead Belly
Se houve algo positivo na versão dos Nirvana no MTV Unplugged, foi ter chamado novamente a atenção para Lead Belly, o extraordinário bluesman que gravou versões definitivas de músicas como “Goodnight, Irene”, “John Henry”, “Bring Me a Little Water, Silvie” e “In the Pines”, mais conhecida como “Where Did You Sleep Last Night?”. Mas a interpretação da banda não tem grande mérito próprio.
Também não é surpreendente que Kurt Cobain e companhia não tenham conseguido chegar perto da força crua e visceral de Lead Belly. Quase ninguém consegue. O problema é a reverência exagerada em torno da versão dos Nirvana, que transforma a música numa lamentação arrastada e auto-penalizadora.
Toda a nuance, perigo, desejo, manipulação e tensão desaparecem. Esperemos que tenha levado mais pessoas a descobrir Lead Belly — embora também haja o risco de a fama desta versão ter escondido a original debaixo de uma enorme camada de mediocridade.
Knockin’ on Heaven’s Door – Guns N' Roses (1991)
Artista original: Bob Dylan
Sendo totalmente sincero, não era só esta versão que devia ser enviada para o lixo da história, mas talvez toda a discografia dos Guns N’ Roses. A versão original de Dylan, escrita para o filme Pat Garrett and Billy the Kid, de 1973, é uma aula de emoção contida. Parte-nos o coração sem esforço aparente e transmite sofrimento, dor e desespero de forma universal.
A versão dos Guns N’ Roses provoca sensações semelhantes, mas apenas porque consegue retirar toda a emoção e significado à canção.
O próprio Dylan, que normalmente elogia versões das suas músicas quando acha que merecem, também não ficou impressionado. Sobre esta interpretação, disse: “Há qualquer coisa nesta versão que me faz lembrar o filme Invasion of the Body Snatchers.”
Perfect Day – Vários artistas (1997)
Artista original: Lou Reed
As crianças já não sofreram o suficiente? Talvez isto nem devesse contar como versão, porque o próprio Lou Reed participou nela, mas acabou por abrir caminho para aquele horrível “Imagine” colectivo dos tempos de confinamento.
Só isso já justificava a entrada nesta lista, mas na verdade trata-se simplesmente de um dos momentos musicais mais insuportáveis e imperdoáveis de sempre.
A única coisa minimamente positiva é que os lucros reverteram para a instituição Children in Need. Ao lado de Lou Reed participaram nomes como Bono, David Bowie, Suzanne Vega, Elton John e muitos outros, todos juntos a transformar algo perfeito em algo praticamente impossível de ouvir.
Hallelujah – John Cale (1991)
Artista original: Leonard Cohen
Vista isoladamente, esta versão não merecia estar nesta lista — muito menos em primeiro lugar. Mas o problema aqui não é tanto esta interpretação, e sim todas as que vieram depois.
John Cale não foi o primeiro a gravar “Hallelujah”, que durante muito tempo era apenas uma música menos conhecida de Leonard Cohen. Mas a sua versão foi o primeiro dominó numa cadeia interminável de novas interpretações, cada vez mais afastadas da essência da canção.
Quando Alexandra Burke a levou ao topo das tabelas em 2008, já existiam mais de 300 versões gravadas. E o sucesso dela apenas gerou ainda mais versões — cada uma pior, mais auto-indulgente e mais vazia do que a anterior.
O próprio Leonard Cohen chegou a pedir uma pausa no uso excessivo da música: “Li uma crítica ao filme Watchmen que usava a música, e o crítico perguntava: ‘Podemos ter uma moratória para “Hallelujah” em filmes e séries?’ E eu sinto mais ou menos o mesmo. Acho que é uma boa canção, mas demasiadas pessoas a cantam.”
Ámen.
