Muitos fãs dos Red Hot Chili Peppers já conhecem a forte ligação de Flea ao Jazz. Apesar de ser o baixista de uma das maiores bandas de Rock do mundo, o músico sempre deixou claro em entrevistas que a sua primeira paixão musical foi o trompete, inspirado por nomes como Dizzy Gillespie, Miles Davis e Clifford Brown.

Honora, o seu primeiro trabalho a solo, até demorou a surgir. Com tantas colaborações ao longo dos anos, Flea poderia ter avançado com algo do género há muito tempo; ainda assim, o momento parece ideal para uma pausa, especialmente depois de uma grande fase criativa com o regresso de John Frusciante aos Peppers, que resultou em dois novos álbuns num curto espaço de tempo.

Mais introspectivo, Honora mostra Flea a “recarregar energias” antes de voltar à rotina com os RHCP. O disco conta com colaborações de nomes consagrados como Thom Yorke e Nick Cave, mas acaba por ser sobretudo uma homenagem ao início da ligação do trompetista e baixista (por esta ordem!) com a música.

Flea toca trompete, baixo e canta em Honora
Logo na segunda faixa, “A Plea”, lançada como single, torna-se evidente que o foco de Flea está em deixar fluir as suas emoções através do trompete. As linhas de baixo ao longo do álbum são tão boas quanto seria de esperar de um dos maiores nomes do instrumento, mas ele também se destaca aqui como trompetista e, por vezes, até como vocalista.

Esta faixa é precisamente um desses momentos e traz uma mensagem algo controversa ao afirmar, basicamente, que “não quer saber de política” e ao apelar para que as pessoas “vivam pelo amor, vivam pela paz”. O discurso pode soar algo simplista, embora sincero, mas isso não compromete a qualidade do trabalho — até porque se trata de um álbum maioritariamente instrumental, onde não se procura uma mensagem profunda para além da paixão pela música.

Esse espírito está, sim, muito bem presente noutros momentos do disco. “Free As I Want to Be”, que encerra o álbum, é provavelmente o ponto alto de Honora, ao combinar influências de Jazz e Funk com um toque de Rock e apresentar uma letra simples que resume bem o estado de espírito de Flea: “sou livre como quero ser”.

Entre versões e originais, Flea brilha em Honora
Acima de tudo, Honora é um disco honesto de um músico consagrado que decidiu sair da sua zona habitual para reencontrar uma paixão antiga. A intenção é válida e o resultado é, no mínimo, bastante agradável, ainda que longe de ser revolucionário.

As composições originais têm bons momentos, mas algumas das versões incluídas no álbum acabam por se destacar e integrar o Top 3, juntamente com “Free As I Want to Be”. A versão de “Thinkin Bout You”, de Frank Ocean, é um verdadeiro deleite — respeita o original, mas apresenta uma abordagem completamente nova; já a interpretação de “Maggot Brain”, clássico dos Funkadelic, é um excelente presente para os fãs do género e evidencia a força de Flea como trompetista — para além da declamação na introdução, feita por ele, que se torna um elemento à parte.

Flea vai levar Honora para a estrada
Mantendo o tom mais intimista do álbum, Flea vai sair em digressão em Maio para apresentar os temas de Honora, com concertos em salas pequenas e um número reduzido de datas — todas já esgotadas, de acordo com o site oficial.

A formação que o acompanhará ainda não foi revelada, mas no disco contou com Josh Johnson (produção e saxofone), Jeff Parker (guitarra), Anna Butterss (baixo) e Deantoni Parks (bateria) como núcleo principal, além de convidados como o brasileiro Mauro Refosco (David Byrne, Atoms for Peace) e Nate Walcott (Bright Eyes).