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A minha coleção de discos está orgulhosamente exposta na sala de estar, cuidadosamente organizada por género.
Os visitantes inevitavelmente comentam sobre ela, assumindo que descobriram as minhas credenciais de audiófilo. No início, entrei na brincadeira, falando poeticamente sobre o calor, os detalhes e o palco sonoro.

Mas está na altura de ser honesto, por isso aqui fica a minha confissão: sou uma fraude. Não compro vinis porque soam melhor. Compro porque ficam melhor.

O Museu na Minha Estante
Não me interpretem mal, eu adoro genuinamente os meus discos. O peso substancial nas mãos, a arte da capa, o suave crepitar quando a agulha toca o vinil.

Mas se a qualidade do som fosse a minha única preocupação, a minha conta do Spotify Premium chegava perfeitamente. Estou nisto pela estética, e suspeito que muitos “entusiastas do vinil”, especialmente os mais jovens, também o estejam, ainda que em segredo.

A minha jornada no vinil começou quando herdei a coleção do meu pai. Clássicos dos Stones e AC/DC, o tipo de música com que cresci. Inicialmente, usei-os como decoração na parede do meu quarto na universidade. Nem sequer os tocava.

O que começou como peças decorativas foi-se transformando lentamente numa coleção a sério quando comprei o meu primeiro disco novo. Era um álbum contemporâneo que já tinha em formato digital e que tinha ouvido centenas de vezes em streaming.

Agora podia segurá-lo, exibi-lo e participar no que parecia ser uma experiência musical mais autêntica. Mas quando o ouvi, não notei grande diferença. Ainda assim, cada disco na minha estante conta uma história, não apenas pela música, mas pela sua presença física.

As bordas gastas das edições vintage, os cantos impecáveis das prensagens limitadas, as capas duplas que revelam arte adicional. Estes atributos físicos criam um museu visual que os ficheiros digitais nunca poderão replicar.

O Ritual de Ouvir Música
Além disso, adoro o ritual. Escolher um álbum da estante. Retirá-lo da capa. Colocá-lo no gira-discos. Baixar a agulha com cuidado.

Estas ações deliberadas transformam a audição de música de uma atividade de fundo em uma experiência intencional.

Depois da universidade, comecei a trabalhar longas horas num emprego exigente que me deixava sem energia ao fim do dia. Ainda adorava música, mas não conseguia desligar simplesmente colocando uns headphones e carregando no play no Spotify.

Servir-me um copo de vinho e ouvir um disco, no entanto? Sentia o stress a desaparecer. Quando recebo amigos, pôr um disco a tocar torna-se um evento. “Vejam isto,” digo eu, puxando um álbum da capa com um cuidado quase cerimonial. O processo de seleção gera conversa. Explico porque escolhi aquela prensagem em particular ou conto a história de como a encontrei num mercado de rua poeirento.

As playlists digitais não criam estes momentos. Ninguém se junta para me ver a deslizar o dedo pelo telemóvel à procura de uma música.

A Verdade Inconveniente
Reconheço os inconvenientes do vinil. É caro. Não se pode levar para o ginásio ou para o trabalho. Tem de se virar a meio. Alguns dos meus discos têm saltos que já memorizei como se fossem parte da letra.

Quando mudei de casa, carregar caixas de discos foi um pesadelo. Se o objetivo fosse pura conveniência ou até perfeição sonora, eu não teria um único vinil. Também já me cansei dos dois extremos no debate sobre vinil.

De um lado, os audiófilos que insistem que a música digital não tem “calor”. Do outro, os puristas do digital que gozam com os colecionadores de vinil, chamando-os de farsantes. Eu posso ser um audiófilo falso, mas suspeito que a verdade esteja algures no meio.

O vinil representa algo cada vez mais raro na nossa era digital: a fisicalidade. Num mundo onde quase todo o nosso entretenimento existe como dados efémeros, os discos fornecem uma ligação tangível à música. Quando compro um vinil, não estou apenas a adquirir som. Estou a adquirir um objeto que representa a minha relação com essa música.

Talvez seja por isso que continuo fascinado pela estética de tudo isto.

Abraçar a Autenticidade
Em algumas noites de sábado, acendo uma vela e deito-me enquanto um disco toca do início ao fim. Sem saltar faixas, sem modo aleatório, sem algoritmos a sugerir o que ouvir a seguir. Apenas a sequência que o artista planeou, exigindo a minha presença ocasional para virar ou trocar o disco.

Este envolvimento forçado cria uma relação diferente com a música. É melhor do que ouvir digitalmente? Nem por isso. Mas essa diferença traz-me alegria.

Portanto, sim, coleciono vinil principalmente pela estética e pela experiência, não porque consigo detetar nuances subtis de áudio que só o meu equipamento topo de gama pode revelar. Já não sinto necessidade de afirmar uma suposta superioridade sonora e prefiro reconhecer os prazeres subjetivos que o vinil proporciona.

Uma coisa que vou continuar a fazer, no entanto, é expandir a minha coleção. Não porque o vinil seja melhor, mas porque enriquece a minha relação com a música de uma forma que me importa.

E, sinceramente, os discos ficam lindamente na minha estante.